"Olha duas vezes se procuras a verdade;
olha uma só se procuras a beleza".
(Frédéric Amiel, filósofo suíço)
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“E se você dormisse?
E se você sonhasse?
E se, em seu sonho,
você fosse ao Paraíso
e lá colhesse uma flor
bela e estranha?
E se, ao despertar,
você tivesse a flor
entre as mãos?
Ah, e então?”.
(Coleridge)
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¿ISOLDA?
(RÁPIDO PARA NÃO PARECER CHATO)
FAMÍLIA. ROER UNHAS. BAHIA. INCENSO. MADRUGADA. TOMAR BANHO. TATUAGEM. 24. ESCREVER. PERNAMBUCO. CÁSSIA ELLER. JORNALISMO. MATERNIDADE. SOL. HERCULANO. POESIA. SANDÁLIA DE “ARRASTA”. PIRULITO. EGOÍSMO. FELICIDADE. PIERCING. TREZE. SOBRANCELHA. PARAÍBA. CRIANÇA. DICIONÁRIO. FICAR EM CASA. COTONETE. JULIO. MÚSICA. CHEIRO. LIBERDADE. TPM TIPO “C”. VIVER. CHUVA. MEDO. ALAGOAS. BOBAGEM. LOS HERMANOS. AMOR. ESCAPULÁRIO. POLÍTICA DA BOA CONVIVÊNCIA. CICATRIZES. PADARIA. CÉU. BARULHO DE VENTILADOR. LEALDADE. HIDRATANTE. MENSTRUAÇÃO. BARQUINHO DE PAPEL. CHOCOLATE. DEUS. MORENA. CONVERSA. SAUDADE. GOSTOS SIMPLES. SILÊNCIO. DEPRESSÃO PÓS-PARTO. VONTADE.
{[(Eu tenho medo
das surpresas da vida,
das emboscadas sem escapatória,
da ironia.
Medo da morte
que virá um dia,
como tudo,
de um certo modo, vem.
Temo a fúria dos meus inimigos
e até dos poucos amigos que guardo.
Medo da fraqueza,
do sono,
do silêncio,
do fim...
Tenho medo de mim quando não posso comigo
e descubro coisas que não preciso:
ódio,
vícios,
mágoa...
É medo sim,
medo só
e de tudo.
Medo das derrotas,
E, lá no fundo,
das grandes conquistas.
Medo de ter que começar de novo,
de ser fraca demais pra certas coisas.
Medo do clima escuro e frio nos falsos sentimentos...
Medo dos atos e pensamentos.
Medo.
De perder antes que eu ganhe,
de ter que parar antes que acabe.
Antes de tudo: o medo.
De sair de mim e não voltar.
De ser, estar, permanecer, continuar sozinha.
Da culpa ser toda minha.
Das vírgulas,
pontos,
e principalmente das reticências...
Das perguntas, respostas e incertezas.
Medo do muito.
Medo do nada.
Medo dessa chama acesa que, aos poucos, faz-se brasa.)]}
_Isºldª, qualquer dia desses/2003_
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"Por que escrevo?
Porque sou pouca e mínima,
embora vária.
Porque não me basto.
Escrevo para compensar a falta,
porque não quero ser só raiz e haste
e preciso do outro para dar sombra e fruto".
(Olga Savary)
"...Penso apenas porque
me agrada a idéia
de divagar sobre os assuntos
que eu bem entender,
sem preconceitos e,
ao mesmo tempo,
exercitar a única liberdade
que realmente tenho.
Penso até
para testar minha moral,
o prazo de validade
dos meus conceitos,
para julgar
o (meu) certo
e o (meu) errado
com pelo menos
alguma lucidez"
(Fábio Loureiro; Eu, Cartesiano)
"Concluireis comigo
que o melhor é não amar,
porém aqui,
para dar fim
a tanta amarga tolice,
aqui e ora
vos direi a frase antiga:
que é melhor não viver.
No que não convém
pensar muito,
pois a vida é curta
e, enquanto pensamos,
ela se vai e finda".
(Rubem Braga)
Somos diferentes, tu e eu.
Tens forma e graça
e a sabedoria de só saber crescer
até dar pé.
Eu não sei onde quero chegar
e só sirvo para uma coisa
- que não sei qual é!
És de outra pipa
e eu de um cripto.
Tu, lipa
Eu, calipto.
Gostas de um som tempestade
roque lenha
muito heavy
Prefiro o barroco italiano
e dos alemães
o mais leve.
És vidrada no Lobo
eu sou mais albônico.
Tu, fão.
Eu, fônico.
És suculenta
e selvagem
como uma fruta do trópico
Eu já sequei
e me resignei
como um socialista utópico.
Tu não tens nada de mim
eu não tenho nada teu.
Tu, piniquim.
Eu, ropeu.
Gostas daquelas festas
que começam mal e terminam pior.
Gosto de graves rituais
em que sou pertinente
e, ao mesmo tempo, o prior.
Tu és um corpo e eu um vulto,
és uma miss, eu um místico.
Tu, multo.
Eu, carístico.
És colorida,
um pouco aérea,
e só pensas em ti.
Sou meio cinzento,
algo rasteiro,
e só penso em Pi.
Somos cada um de um pano
uma sã e o outro insano.
Tu, cano.
Eu, clidiano.
Dizes na cara
o que te vem a cabeça
com coragem e ânimo.
Hesito entre duas palavras,
escolho uma terceira
e no fim digo o sinônimo.
Tu não temes o engano
enquanto eu cismo.
Tu, tano.
Eu, femismo.
(Luís Fernando Veríssimo; Tu e Eu)
Quando o primeiro amor morreu
eu disse: morri.
Quando meu pai se foi,
coração descontrolado,
eu disse: morri.
Quando as irmãs mortas,
a tia morta,
eu disse: morri
Depois, a avó do Norte,
os amigos da sorte,
os primos perdidos,
o pequinês, o siamês,
morri, morri.
Estou vivo,
a poesia pulsa,
a natureza explode,
o amor me beija na boca,
um Deus insiste que sim.
Sei não,
acho que só vou morrer
depois de mim.
(Tanussi Cardoso - As Mortes)
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Affonso Romano de Sant'Anna |
"Sou inquieta, áspera
e desesperançada.
Embora amor dentro de mim eu tenha,
só que eu não sei usar amor,
às vezes arranha
feito farpa.
Se tanto amor
dentro de mim
eu tenho,
mas no entanto continuo inquieta,
é que eu preciso
que o Deus venha
antes que seja tarde demais.
Corro perigo
como toda pessoa
que vive
e a única coisa
que me espera
é exatamente
o inesperado.
Mas eu sei
que vou ter paz
antes da morte,
que vou experimentar
um dia
o delicado da vida.
Vou aprender
como se come e vive
o gosto da comida."
(Cazuza/Frejat/Clarice Lispector)
.:cONTATo:.
 isoldaherculano@hotmail.com
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Sábado, Outubro 11, 2008
Diante do avanço temporal da existência, amadurecer - o verbo de licença paulatina - tornou-se uma necessidade bruta. A infância morre com a idade estabelecida dentro dessa nova linhagem de pensamento que, desde muito cedo, sacrifica também os pequeninos. Tudo isso me faz lembrar, com muita saudade, da criança que pude ser, da meninice regida por uma felicidade arcaica cujos vestígios, praticamente, não mais se encontram. Porque houve o tempo em que a imaginação era o único ingrediente necessário na confecção de todas as brincadeiras; só bem mais tarde chegaram os video-games...
Naquela época - quando ainda se dava a mão à palmatória - a escola era um ambiente mais ameno onde se trocava qualquer tipo de afetividade quase familiar com nossos iguais e superiores (ora, quem já não chamou, alguma vez, a professora de "tia"?). Sinto falta até mesmo da mini-ditadura ensaiada nos pátios quando, enfileirando um pequeno exército, saudávamos a bandeira do Brasil. Hoje, é graças às transmissões dos jogos da seleção que ainda se exercita - em versos errantes - o hino nacional, enquanto cenas que insinuem o nacionalismo real ficam a mercê dos enredos cinematográficos.
Acabou-se o medo de bicho-papão, mula-sem-cabeça, bruxas e todos os outros seres mumificados na fauna encantada da criatividade infantil. O temor das criancinhas modernas é a violência urbana, e por causa dela os parquinhos nas praças das grandes cidades estão sempre desertificados. No aconchego do lar, ali mesmo, cultiva-se o sentimento de pavor pelas ruas e suas balas perdidas, pelo trânsito e seus acidentes letais, pelas pessoas e sua inteligência caótica. Nessas condições toma-se certo gosto pela política do cárcere, lugar onde se aprende a educação adquirida através dos aparelhos de TV e a indisciplina justificada nos pais ausentes.
A lembrança da criança feliz que tive a oportunidade de ser não encobre a tristeza que sinto ao passar por avenidas repletas de pequenos marginalizados ou ao saber que tantas outras estão enclausuradas em domicílio. E, de repente, eu tenho medo que essas crianças amadureçam à força sem ter entoado uma cantiga de roda, subido árvores, empinado pipas, jogado bolas de gude e então, sem desfrutar a inocência do próprio âmago, tornem-se adultos antes de alcançar a mais simples e fascinante de todas as conquistas: um amigo de infância.
.: ISOLDA HERCULANO 10:45 .:
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Quarta-feira, Outubro 01, 2008
E eu que acreditava (até ontem) que uma xícara de café bem quente ou um banho gelado curasse todos os males – de ressaca a dor de cotovelo, de cólica menstrual à crise de choro. Mas não. A vida não se resolve à base de receitas caseiras, tampouco na companhia medicamentosa dos fármacos. Não se resolvem os problemas, acho. Enfim, migram para outras dimensões de nós – como meninos cansados da antiga brincadeira.
Também não sei se sonhar faz mal à saúde, como previnem os pragmáticos, ou é fundamental, como garantem os otimistas. Sei que sonhamos, sem licença prévia, porque a vida – ideal ou sinistra – nos doa instantes para eles, os sonhos. Quando dormimos, evidentemente, embora também acordados ou quase isso, que seja!, já que saímos um pouco do mundo para passear em nossas próprias liberdades. Espero que todas as pessoas ainda sonhem, para que não percam o caminho de suas verdades.
Eu poderia ter sonhado menos, para menores ilusões. Eu poderia ter sonhado mais, para que mais coisas pudessem existir. A gente deve sonhar alto – ouço dizerem homens bem sucedidos com os olhos cheios de frustrações e inocência, mas largos sorrisos nos lábios.
Diante deles, é como se eu tivesse vontade de continuar a sonhar que, por todos os dias dessa minha estranha vida, meus olhos riam mais do que a boca.
.: ISOLDA HERCULANO 20:10 .:
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Quinta-feira, Setembro 18, 2008
Ele sempre teve certeza que a amava, desde a primeira vez que a viu, embora não houvesse em si inclinação alguma para crença nos amores à primeira vista. Amou-a e ponto final, sem querer extrair lógica de nenhuma outra premissa. E amava – como amava – seus cabelos, suas horas sem ponteiros, o balançar dos seus braços quando falava (ainda que ela só falasse e falasse, a dizer nada).
Amava-a por gostar de lhe ter na outra ponta do travesseiro quando acordava – ah, ele sempre despertou mais cedo, quiçá, para ver que ela ali, rendida, era ainda mais linda. Aquele amor tinha a inocência de uma criança, apesar de serem adultos quase todo o tempo. Nem por isso seus beijos deixaram de ter gosto de maçã do amor e os frios na barriga eram como antes – parecido com andar de roda gigante.
E aceitava os defeitos dela com a complacência de um louco varrido. Atirava-se em suas redes e precipícios – sem intervalos para o almoço e outros vícios do anonimato falido. Amou aquela mulher como se o mundo fosse terminar amanhã. Mas os dias se estenderam por toda a vida. Amava e, do amor, fez-se o marido. A existência ganhou sentido nas fotografias. E amá-la foi ficando raro porque o amor, talvez, nunca existiu, não existia. Existe a interpretação do amor. Por vezes vadia.
Ficou a odiar seus vestidos e bordados. Os quadros pendurados, sofás e cristaleiras. Mas os netos já chegavam às sextas-feiras para os fins de semana mais agitados. Achou que não havia idade para amar com verdade. E passou a criancice e os sonhos da mocidade.
.: ISOLDA HERCULANO 11:50 .:
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Quarta-feira, Setembro 10, 2008
As mudanças são verdadeiros dilemas para os que vivem. Mesmo as mais simples como sair de uma casa para outra na mesma rua ou escolher cor nova para o cabelo, muito embora eu não esteja mentalizando simplicidade agora. Penso em modificações menos externas, mais drásticas, daquelas que trazem a incerteza de pisar em solo arenoso – a sensação pode ser boa e inesquecível, mas corremos o risco de afundar.
É claro que muito se diz sobre a grande valia do ato de “correr o risco”, embora diante da dúvida entre arriscar e deixar as coisas como estão titubeamos sempre. Quem sabe seja porque as tais “coisas”, ainda que ruins, possam piorar. Ou porque esperamos mais do que sorte na hora de tomar grandes decisões e preferimos não calcular nossa chance em um milhão – como fazem os tantos perdedores da mega-sena meio a um único ganhador, quase todas as vezes.
Apesar de metódica, por ocasiões, sou uma pessoa otimista. Do tipo que trabalha ato e pensamento para que tudo melhore e, coincidência ou luta, tudo melhora. Otimista com muitas pitadas de realidade para dar o tempero, digamos assim. E o mais importante: otimista sem medo – para que não fique prisioneira do meu próprio otimismo, pois a vida não é bela como aquele título genial do Roberto Benigni.
Utilizando o modelo de uma fábula natural, mudar é fundamental para deixarmos de rastejar feito lagartas e voarmos como borboletas. Esse blog, por exemplo, já foi predominantemente preto-e-branco, mas, vez em quando, sinto necessidade de pôr cores nele. Sou radical para muitas situações e me obrigo a ser mais flexível para outras, com algum esforço. Já tive pavor do escuro e sempre optei por dormir de luz apagada. Por que? Pelas mudanças não fazerem boa parceria com o medo; porque o temor impede de darmos até o primeiro passo e também porque precisaremos de coragem se, por ventura, descobrirmos que demos o passo errado.
.: ISOLDA HERCULANO 14:27 .:
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Terça-feira, Setembro 02, 2008
A vida se parece com muita coisa – deduzimos isso sozinhos no silêncio do quarto ou com a ajuda da vizinha estressada do primeiro andar que, no ápice dos ânimos exaltados, grita: ô, inferno! Mas não sejamos tão ingratos, afinal, quando apaixonados, apregoamos a torto e a direito que isso aqui é o sétimo céu. Somos paradoxais, a vida também tem seu direito de ser.
Dias cinzentos nascem quando planejamos um final de semana “daqueles” na praia. Podemos ficar em casa de cara amarrada ou promover uma sessão pipoca com direito a todos os filmes que sempre tivemos vontade de ver e o tempo não havia ainda colaborado. Pensar no mal que poderia surgir também é outra tática: intoxicação alimentar, insolação, afogamento, pneu furado, assalto, hérnia de disco (?), enfim. Toda boa coisa tem seu lado nebuloso – até dias lindos de sol, não?!
Para quando a paciência ameaçar fugir, os manuais de auto-ajuda ensinam a respirar fundo e contar até dez. Nunca entendi isso direito, também porque manuais de auto-ajuda me auto-atrapalham muito e eu não consigo chegar nem até a décima página deles. Ser paciente, para meu singelo ponto de vista, é molhar um jardim inteiro de plantas, educar filhos, acompanhar um parente em fase terminal de alguma doença cientificamente sem cura. A paciência é a espera ativa sem desespero – digo “espera ativa” porque é crucial (para a mente, inclusive) fazer outra coisa enquanto se espera. Para quem não sabe, ler revistas de fofoca enquanto aguarda sua vez no dentista é a menor delas.
Todas as vezes que a vida aparenta ser o que não é nos sentimos desestimulados, enfraquecidos, vencidos. Por que, no fundo, acreditamos possuir um poder qualquer sobre ela – e sobre nosso marido, nossos filhos e alguns amigos mais influenciáveis. E afinal, para quem achava ser o tabuleiro do xadrez vai ser sempre frustrante se descobrir como mera peça do jogo. Ainda havendo a chance e a glória de um xeque-mate.
.: ISOLDA HERCULANO 17:12 .:
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Quarta-feira, Agosto 27, 2008
A vida de todo mundo daria um filme, um livro, uma novela das oito – vivo dizendo a frase, com certa constância, a todos os amigos que fazem queixas da mesmice de suas existências. Já fui de me queixar também, naturalmente, e não critico quem o faça; aliás, queixumes são, muitas vezes, o primeiro passo da mudança nas idéias nefastas do falador. Como um bom amigo, serei, quase sempre, todo ouvido. Digo “quase” porque algumas queixam ganham – sem permissões prévias – o compasso literal da ladainha. E ladainhas enfraquecem até amizades, acreditem.
Ouvir é uma boa experiência, embora nos especializemos mais em falar, pois chegamos a achar, em certos momentos, que o grau de importância de um homem pode ser medido pela perfeição de sua oratória, seja ela genial ou geniosa. E vislumbramos vocabulários riquíssimos. Claro que já passei por tudo isso, chama-se individualismo – os mais cruéis (e mais reais?) chamam egoísmo. Devemos admirar quem tem o domínio sobre as palavras, ditas e/ou escritas, mas sem esquecer que a beleza é um ledo engano e engana o mais gentil de seus admiradores.
Apesar disso, nós, seres humanos, gostamos de falar. E falamos pelos cotovelos, pelos joelhos, pelas raízes dos cabelos. Falamos coisas certas nos momentos errados, contamos segredos que, jamais, poderão ser revelados, porque silêncios parecem ensurdecedores e nos incomodam. Falamos porque temos uma besteira qualquer na cabeça e, para que não pese a consciência, precisamos descarregar, dividir o peso.
Já para os momentos cruciais da vida não nos damos ao luxo de falar: nascimento, orações, beijos. O amor, por exemplo, é um sentimento deliciosamente silencioso, amigos, embora molestemos sexualmente sua sapiência com pedidos do tipo: diz que me ama! O outro dirá, antes mesmo do clamor, for o caso, mas o amor que sai da boca é falacioso. Amar, e de verdade, é saber ler nos olhos da outra pessoa, seguramente; sentir, nas atitudes não ditas, e cobrar o menos que se pode. O resto é desfecho que inventamos para acabar a vida contando – aos netos no Natal – que tivemos uma história feliz, para sempre.
.: ISOLDA HERCULANO 21:08 .:
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Sexta-feira, Agosto 15, 2008
Desde que o mundo é mundo
Nonato quer ser Affonso,
Bastião que ser Thiago,
Drummond quer ser Raimundo.
O olhar, bem lá no fundo,
entorpecido em belezas,
mas carente das proezas
que se perde em um segundo:
amor, compaixão, triunfo
– sentimentos errabundos.
A verdade em branco e preto
não se fala francamente
quando há medo no presente,
nostalgia por passados
e más crenças no futuro.
Traz um emprego seguro,
uma família enlatada:
filhos, cachorros, comida
roupa e casa lavada.
E a vida severina
vai mudando de figuras
mas são as mesmas molduras
na confecção humana.
Se a matéria é seda pura
ou tecido vagabundo
nem importa o que parece,
pois o mundo ainda é mundo.
.: ISOLDA HERCULANO 11:42 .:
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Sexta-feira, Agosto 08, 2008
A sociedade pode enxergar o voluntariado de várias maneiras. Algumas pessoas torcem o nariz para a causa com a famosa pergunta: você não ganha nada com isso? É claro que o duvidoso em questão desconhece tudo o que pode estar embutido no cerne da palavra “ganhar”. Voluntários ganham algo com isso, sim! E digo mais: ganham muito, com tudo.
O retorno financeiro não é foco no trabalho voluntário – essa questão deveria estar mais clara na mente das pessoas, mas não está ainda. Digo que o voluntariado não é remunerado, é recompensado. E as recompensas que conseguimos com ele são diversas. A primeira delas é o contato com pessoas que têm os mesmos interesses que nós. Ao chegarmos a um grupo que desenvolve esse tipo de trabalho já temos a certeza de estar no lugar certo. E de um ambiente assim, o que conseguimos extrair é, no mínimo, uma conversa agradável a cada encontro, por menos tempo que ele dure.
Depois, temos a possibilidade de fazer o bem. No caso do Voluntários em Ação (CLIQUE PARA CONHECER) decidimos que o foco é a educação. E é através desse tema central que temos chegado a tantos outros como: a necessidade de gerar uma renda familiar extra, o estímulo às atividades profissionais, o relacionamento familiar, a saúde dos moradores das comunidades onde nos concentramos (Santo Onofre e São Rafael). Enfim, são vários os temas para enumerar num texto.
Nossas atividades estão começando. É, como se diz, apenas a ponta do iceberg que está de fora. Um iceberg de dificuldades, claro, não há como fugir de uma realidade que grita todos os dias que botamos os pés fora de casa. Mas as dificuldades são as maiores fábricas de oportunidades que conheço. Acredito muito na valia de fazermos o que é possível hoje, sem mais delongas, porque a espera cansa e podemos perder um jovem promissor para os atrativos do consumo, do vício, da criminalidade. E o impossível? Esse sim, podemos deixar para realizar amanhã.
.: ISOLDA HERCULANO 17:25 .:
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Segunda-feira, Agosto 04, 2008
Olá leitores amigos,
este post é unicamente para dividir com vocês minha alegria e, por que não dizer, empolgação ao saber que fui premiada com o 2° lugar no concurso Você é o Crítico, realizado pelo Cine Sesi Pajuçara, aqui em Maceió. Não sou, exatamente, o que se pode chamar de cinéfila, mas filmes de bom gosto não passam despercebidos diante da minha audiência nada passiva. Cinema, escrita e competição foram atrativos num dado momento para mim, então, resolvi arriscar. Dei “sorte”. Da próxima vez tentarei a mega-sena (risos). Ah, já ia esquecendo: além de um reconhecimento meio inesperado até, fui premiada com oito meses de cinema grátis (com direito a acompanhante em todas as sessões). Um luxo, não acham? Bem, sem mais blablablá: segue a minha crítica do filme ESTÔMAGO, para a minuciosa avaliação de vocês. Recomendo a leitura e, caso apareça oportunidade, vejam o longa também.
ESTÔMAGO: uma história de lamber os beiços
O longa ESTÔMAGO, uma produção ítalo-brasileira do diretor Marcos Jorge, parece, em princípio, ser um filme com roteiro já explorado por outras bilheterias. Seu enredo conta a história de Raimundo Nonato, um nordestino que decide aventurar na cidade grande, feito milhares de conterrâneos seus, por não ver o Nordeste como uma terra de sorte. Mas toda história que se preze tem princípio, meio e fim – e, em se tratando de ESTÔMAGO, a primeira impressão é a que muda.
Que sorte haveria de aguardar um cidadão semi-analfabeto, sem um tostão no bolso e desprovido de boas procedências? Certamente, Nonato gastaria meses (anos até) na fila de espera pelo primor de um emprego formal. Mas a informalidade existe e é nela que o forasteiro consegue dar os primeiros passos de uma caminhada relativamente curta entre a miséria de sempre e a novidade da ascensão. Interpretado pelo jovem ator João Miguel – que estrelou produções como Cinema, Aspirinas e Urubus (2005) e O Céu de Suely (2006) – o personagem migra da inocência nata à sagacidade numa gradação tão brusca quanto imperceptível.
O centro das atenções no filme é, sem sombra de dúvida, a comida. Comer significa matar a fome, no seu sentido mais natural. Comer significa alcançar status, já que alguns pratos custam caro. E a comida significa, indesviavelmente, uma habilidosa forma de adquirir poder – quando o assunto é pesar a mão sem exagerar no tempero. Raimundo Nonato, que não poderia entender dessas definições, acaba aprendendo no labor diário, como preparador de coxinhas nos fundos de um boteco, que cozinhar é a arte da conquista. Mas é na refinada cozinha de um restaurante italiano que a disposição bruta do cozinheiro pode ser lapidada com o auxílio sem-igual de Giovanni (Carlo Briani), proprietário do estabelecimento e amante da arte culinária. É através dos ensinamentos do patrão que Nonato consegue adicionar a seu talento o conhecimento e a técnica que jamais teve.
Um envolvimento amoroso daria mais cor e sabor a narrativa, por isso o aparecimento da figura feminina numa realidade, até então, predominantemente masculina funciona como aperitivo, quando ainda é impossível imaginar elementos do prato principal. Neste contexto, aparece Íria (Fabíula Nascimento), gulosa prostituta que não vê problemas em negociar o corpo por uma gorda quantia de prazer gastronômico. Em algumas ocasiões, cobra bem barato: uma porção de coxinhas conservada em geladeira serve de adiantamento, desde que preparada por Nonato. O relacionamento dela com o cozinheiro interliga, de uma vez por todas, a gula e a luxúria – dois dos mais permissíveis pecados capitais.
No cerne do ambiente penitenciário, destino que garante o suspense do filme, é preciso galgar posições numa escala social pré-estabelecida e, muitas vezes, injusta – exatamente como acontece do lado de fora das grades. O protagonista, que deixa de ser Nonato para se tornar Alecrim, se vê diante de uma guerra declarada e decide lutar munido de garfo e faca: armas de sua única habilidade. A conquista paulatina de mais espaço é um momento esclarecedor para o cozinheiro perceber que, na vida e na arte, há os que devoram e os que são devorados. Ele prefere devorar. Ainda que mastigue vagarosamente o alimento, como mandam os manuais de etiqueta e a política da boa vizinhança.
ESTÔMAGO, uma fábula para expectadores adultos, explora o limiar humano na luta pela sobrevivência digna entre os prazeres da carne e a idoneidade moral. O filme mistura comédia, drama, alegoria e suspense, como se todos esses ingredientes fossem condicionantes para um suculento desfecho final. No fim das contas, pode se dizer que são, pois as cenas, além de marcantes pelos diálogos, cores, trilha sonora e atuação, parecem ter cheiros e aguçar outros campos sensoriais da percepção humana. Uma produção que desperta, no escuro e no frio de uma sala de projeção, a inquietante vontade de abandonar medidas calóricas, pavores ideológicos, e se fartar de tudo até o lamber dos dedos.
Créditos dos demais premiados:
1° Lugar - FRANCISCO JOSÉ P. SOARES - Crítica do filme CHEGA DE SAUDADE - Prêmio: 1 ano de cinema grátis.
3° Lugar - VANESSA GOMES DE QUEIROZ - Crítica do filme PARTÍCULAS ELEMENTARES - Prêmio: 6 meses de cinema grátis.
Quando os textos deles forem publicados (na próxima quinta-feira, 7) colocarei os links aqui no blog.
Beijos.Isolda.<
.: ISOLDA HERCULANO 21:45 .:
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Domingo, Julho 20, 2008
Está circulando na internet um texto que remete autoria ao jornalista, cineasta, crítico (e o escambau) Arnaldo Jabor. Eu, particularmente, acho que é mais um artigo apócrifo – desses que não têm pai nem mãe e andam por aí em busca de carona na fama de quem tem nome. Digo isso porque gosto dos textos do Jabor, suas pitadas de ironia fina e outras figuras de linguagem bem alocadas. Já o “Infidelidade Masculina - Uma visão real” é ofensivo, contraditório, utiliza uma gramática chula que em nada se aproxima da elegância e elaboração crítica do famoso autor. Por isso mesmo contestarei os trechos mais mesquinhos do texto, que já chegou aos e-mails de alguns amigos meus.
NÃO EXISTE HOMEM FIEL - Diz o primeiro tópico. Pois bem, não vou jogar com a mesma leviandade do autor, que jura de pés juntos, amparado por estatísticas sem selo do INMETRO: 99,9% dos homens brasileiros são infiéis. A infidelidade existe em níveis altos, é verdade. Apenas chamo atenção para a primeira contradição explícita do escritor: ele inicia o assunto dizendo que algo não existe, depois reserva para esse mesmo “algo” a fatia – ainda que mínima – de 0,1%. O Jabor publicaria erro matemático tão crasso? Arrisco um “não”.
NÃO DESANIME. O HOMEM É CAPAZ DE TE TRAIR E DE TE AMAR AO MESMO TEMPO - Esse trecho denuncia o perfil do autor e sua intenção embutida nas palavras: além de ser um machista convicto, deseja persuadir as mulheres de que se render à idéia machista é o caminho para a felicidade.
SEJA UMA BOA ESPOSA, MANTENHA-SE BONITA, MAGRA, SENSUAL, MALHE, TENHA UMA PROFISSÃO (NÃO SEJA DONA DE CASA), SEJA INDEPENDENTE E MANTENHA O CLIMA LEGAL EM CASA - Outra demonstração do machismo sem argumento. O homem deseja que nós, mulheres, sejamos um tipo de Amélia do século XXI geração turbinada. Simplesmente. Ah, e mais uma visível repetição de pobreza gramatical.
O CARA QUE FICA CERCADO, SEM TRAIR, É INFELIZ NO CASAMENTO, SEU DESEMPENHO SEXUAL DIMINUI - Não pude deixar de duvidar da virilidade deste cidadão que, entre outras baboseiras, avalia o homem que não trai como “viado” enrustido ou crente extremamente convicto. Faz parte da sua conduta também aconselhar as mulheres que desejam um marido/namorado fiel a mudarem de orientação sexual. Num momento em que o mundo vê a homossexualidade cada vez mais distante da escolha individual, falta ao autor, além de tudo, atualização.
A TRAIÇÃO TEM SEU LADO POSITIVO - Não darei muito credito a uma afirmação que considera a atitude de trair como algo bom. E a sensação momentânea de prazer despertada no traidor durante o ato da traição? É egoísta, meu caro; uma aparente felicidade sobre a infelicidade de quem você ama. Pode isso ser bom? Se a traição tem um lado positivo, certamente é o lado de fora. Ou, quem sabe, um HIV positivo.
O HOMEM SÓ PRECISA DE UMA BUNDA. A MULHER PRECISA DE UM MOTIVO PARA TRAIR - Bem, mulheres e homens têm a mesma disposição sentimental e anatômica para a traição, são organismos semelhantes com a relevante diferença cultural, que vem se atenuando. Mulheres podem trair por puro tesão, homens podem se apaixonar por outra. Agir assim não é mais considerado alienígena. E no meu singelo ponto de vista, a bunda já é um motivo. Ou seja: o desatento autor acabou equiparando o sentido de coisas que quis contradizer. Um erro amador, eu diria.
FINJA QUE NÃO SABE QUE ELE DÁ UMAS PEGADAS POR FORA. ISSO É O SEGREDO PARA UM BOM CASAMENTO - Siga as orientações do aloprado escritor e eu terei imenso prazer em ser testemunha no seu processo de separação.
SE VC ESTÁ REVOLTADA POR ESTE E-MAIL, AQUI VAI UM CONSELHO:VÁ TOMAR UMA ÁGUA E VOLTE PARA LER COM O ESPÍRITO DESARMADO - Mas não se trata de revolta, fiquei envergonhada com o artigo. Nem me dei ao trabalho de levantar para beber o tal copo d’água. Permaneci sentada, onde ainda estou, pois desde a leitura da primeira linha julguei estar com mais munição mental do que o autor desse famigerado texto – que deve ter sido escrito sob a pressão de uma recente ejaculação precoce. Foi assim que resolvi preparar minha resposta.
.: ISOLDA HERCULANO 00:43 .:
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Domingo, Julho 13, 2008
Minha infância se deu num período em que a rua ainda era o melhor lugar para brincar – e me orgulho disso, também por achar que aquela geração foi uma das últimas privilegiadas com a proeza. O sulista pega-pega era chamado, no interior da Bahia, de trisca. Simples assim: eu triscava em você para você ter de triscar no outro e isso ia até uma mãe botar a cabeça pra fora do portão e gritar: vem pra dentro, menino! É claro que, na maioria das vezes, o “menino” não ia – fingindo nem ouvir o chamado materno ou, pior, iludindo com o famoso “nextante, mainha” .
Além dessa, tinham as brincadeiras de roda, de bola (diversas), de esconder, dono da rua, passar o anel, cair no poço... Enfim, o cardápio seguia o gosto do freguês; qualquer criança se encaixaria perfeitamente numa diversão daquelas, senão em todas elas. Lembro uma que, sempre adorei, mas tive poucas oportunidades de brincar: polícia e ladrão. Primeiro porque os meninos, geralmente, não permitiam meninas na patota deles e, segundo, por sobrar para mim – todas as vezes – o papel de ladrão. E eu adoraria ser, uma veizinha ao menos, a policial (coisa que, se bem me lembro, nunca aconteceu).
Comecei a amar a figura do policial quando, certa vez, num acidente de bicicleta, fui socorrida por um: fardado, alto. Ele me carregou nos braços para dentro do banco que fazia a guarda – Baneb, antigo Banco do Estado da Bahia, na cidade de Casa Nova (lembro como se tivesse sido hoje à tarde) – e lavou o sangue do meu corte com uma garrafa d'água que tirou da geladeira da agência. Aquela pessoa, que já nem sei quem é, ficou guardada na minha memória seletiva como um herói. Herói de verdade, daqueles que a gente espera a salvação nos momentos críticos – alguns chamam de Deus, outros de cartão de crédito, eu chamei de herói e nada mais. Até quis, um dia, ser policial por conta do episódio, mas as ilusões da infância passam, como tudo.
Muito depois eu viria a ficar triste com a representação do policial brasileiro. São homens (e mulheres!) sofridos, mal pagos; alguns trabalhadores e decentes, outros matadores e corruptos. A atual crise deflagrada com evidência no Estado do Rio de Janeiro – onde a polícia anda matando crianças, jovens e adultos inocentes – é o outro lado da história que vivi e, sei, não poderei guardar para que meus filhos vivam. Eles, certamente, não brincarão de polícia e ladrão, porque não existe mais a garantia do respeito às regras do jogo. E quando policial e bandido brigam do mesmo lado, sobra bala até para quem não estava na “brincadeira”.
.: ISOLDA HERCULANO 20:59 .:
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Segunda-feira, Julho 07, 2008
Durante a adolescência eu tive – como todas as minhas companheiras de faixa etária tiveram – capas e contracapas de cadernos decoradas por frases poéticas, proféticas, babacas, que seja! Coisas do tipo: gosto do gosto gostoso de gostar de você, amar se aprende amando, nunca mude o seu jeito de ser, eteceteras coisa e tal...
A manifestação de carinho que ficava era sempre boa: canetas coloridas e a letra caprichadíssima ajudavam, claro. Havia também uma certa disputa pelo melhor espaço, já que as filosofias apregoadas ali não tinham, digamos, tanto primor. Mas éramos adolescentes e nada mais importava. Importavam as mechas que fazíamos nos cabelos com papel crepom, as tatuagens de chiclete, os meninos da oitava série. O resto era bobagem daquelas que a gente nem via. Tínhamos quanto: onze, doze, treze anos? E preocupações que iam do boletim à urgência de dar o primeiro beijo. Crise do petróleo, então, nem existia.
O fato é que acabo de lembrar de uma frase que dizia “o amor é uma força permanente: não se compra nem se vende, não se ensina nem se aprende, nasce e morre com a gente”. Eu a adorava. Acreditava nesse amor, que não encontramos nas prateleiras, de forma enérgica. Naturalmente, isso tinha muito a ver com o tropo do príncipe encantado que, a essa altura, já tinha na cabeça. Mas, ai!, que ao longo da vida muitos sapos apareceram para coxiar nos meus sonhos de príncipes em cavalos brancos... Enfim, essas são outras histórias.
Hoje a realidade me diz coisas mais feias: que esse tal de amor é um sentimento flutuante (amamos agora aqui, o que não nos impede de amar, tão logo, acolá). Que tudo na vida tem seu preço – mas nem sempre vai ser um barato sair com pessoas caras. Que aprendemos a amar, principalmente com os erros dos amores passados. E o amor que nasce com a gente, tenho a impressão, é completamente diferente do que nos acompanha ao leito da morte – tantas são as perdas e os ganhos do caminho.
Enganos assim acontecem na vida: já pensei em culpar os poetas, os loucos e os tolos que semeiam o amor, tantas vezes, de forma explicável. E se orgulham em dizer que o amor é isso; o amor é aquilo. E o amor o que é? Talvez uma frase bonita, protegida pela mão da licença poética. Talvez.
.: ISOLDA HERCULANO 19:02 .:
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Sábado, Junho 28, 2008

Eu deveria estar dormindo o sono dos deuses, mas se estou aqui, escrevendo, é porque não poderia, por mais que devesse, por mais que a idéia de santidade me fosse todo fascínio – e não é. Estar acordada, quando se tem a chance de dormir e é tarde o suficiente para isso, parece óbvio ululante e, às vezes, é ruim ser óbvia. Ah, se as pessoas fossem mais reticentes...
Talvez eu não goste de mistérios; ser misterioso confunde, causa aquele sentimento de ambigüidade que, não-fácil, podemos nos livrar. Mas o reticente é meu limite permissível – ainda sob o perigo de causar impressões dúbias, e, ora, nenhuma decisão é perfeita. Penso que as pessoas me olham sem saber se meu gosto está mais para cítrico ou forte – delicado não me parece que considerem. É claro: posso ser delicada. Mesmo que minha delicadeza – como reclamam! – seja um tanto quanto estúpida.
São rótulos, enfim. Quem não é um pouco estúpido ainda que dê largos “bons dias” ao chegar para o expediente de dois turnos seguidos quase sem intervalo?estúpido ao dizer que tem um compromisso urgente e estar livre?quando vira para o outro lado e finge que nem o viu passar? A estupidez é rotineira, contagiosa e nos acomoda dentro dela. Portanto, não há porque se sentir pequenino se lhe consideram estúpido demais para certas coisas e coisas erradas.
As pessoas gostam de estar sós – querem privacidade, precisam morar em seus íntimos, necessitam silêncio para sessões de meditação e ioga. Eu não quero ficar só – e não que tenha medo de escuros ou acredite em fantasmas debaixo da cama – mas, de alguma forma, me sinto despreparada para a vida a um. E olha que já quis morar sozinha, ter uma samambaia e um peixe “beta” (aqueles que não carecem bomba de ar). Já desejei tranqüilidade.
Tudo isso por ter sido muito inquieta na vida; hoje me considero uma anciã com pouco mais de vinte, mas quase vinte e cinco. Daquelas que ‘inda não usa bengala nem andador, tem a coluna mais ereta do que o recomendado, a memória alva como antigamente. E o bom de se sentir envelhecido é que a velhice, em essência, parece muito com a infância: é assim que, passando por um dia de cão, acredito que posso dormir na mais fina companhia dos deuses.
*DO FRANCÊS: Boa noite.
.: ISOLDA HERCULANO 00:36 .:
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Terça-feira, Junho 17, 2008
Ah, a alegria – que dizer dessa menina sapeca que às vezes parece tão amiga e outras vem com essa cara de desconhecida trazendo surpresas? Digo que estou alegre e não hei de me deixar infestar por pensamentos negativos daqueles que sussurram ao meu ouvido: é apenas um momento bom que passará. Estou alegre e embora não possa apregoar que esse sentimento é a garantia autenticada (em cartório) da minha felicidade duradoura, vou vivendo, risonha, satisfeita – feito um monte de pessoas alegres que esbarro pelas ruas toda vez que saio para viver e vivo.
A alegria dos outros contamina, é verdade, por isso busco aparentar sempre um espírito alegre, mesmo quando o sono da noite anterior for perturbador. Ter uma certeza meio torta de que, ao sair, vou contaminar alguém, arrancar dele a inegável marca do sorriso... é como dia de pagamento! E olha que não há patrão que pague o meu sorriso alegre de si mesmo; alegre porque a piada do outro foi tão sem graça que não poderia deixar de ser engraçadíssima; alegre por ver uma criança (daquelas bem pequenas) simpatizar com minha cara e ofertar um riso gratuito sem que sua mãe perceba nosso segredinho.
De repente paro, tento olhar para dentro e identificar de qual pedaço da minha alma veio esse otimismo todo em forma de alegria. Será que foi aquela música deslumbrante – gravada ainda em Long Play – que conheci ontem? Ou há de ter sido um amigo velho que apareceu inesperadamente com o cheiro da amizade novinha em folha que tínhamos quando nos conhecemos? Estarei apaixonada outra vez – pelo mesmo homem, quantas e quantas vezes houver de ser? De qualquer forma não gosto de ficar parada tanto tempo pensando muito para uma tão pouca execução de atos.
Momentos bons passarão, enfim, e quem me garante que não se sucederão por instantes melhores ainda? Pode ser que eu esteja sendo utópica demais e precise pisar um pouco mais firme, visto que o chão é um perigo iminente. Mas só por hoje não vou tomar minha dose de realidade. Nem que amanhã precise de dois comprimidos.
.: ISOLDA HERCULANO 20:11 .:
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Sábado, Junho 07, 2008
Quem contará as histórias? Acabo de me emocionar ao encontrar na Internet a capa do livro que mais amei na vida: O Barquinho Amarelo. Esse exemplar que ilustra o texto é a reprodução fidedigna do que eu tinha em casa quando muito pequenina. Não lembro exatamente minha idade na época, mas estava em fase pré-escolar ainda: não sabia ler nem escrever e, como uma filha bem orientada por pais preocupadíssimos com seu futuro, já tinha livros.
É engraçado que, apesar da pouca idade, eu lembre de forma nítida dos meus pais – seu Elmar e dona Marinês – lendo exaustivamente as histórias contidas no livreto (a do Barquinho era minha preferida, claro). Como sempre fui boa de “decoreba”, acabava gravando trechos do texto e, sobre a narrativa dos meus benfeitores, fazia a minha leitura fajuta, mas certeira. Decorar era minha praia, absolutamente: chego a rir quando me vejo aos 3 anos cantando músicas do Jimmi Clif. Parecia coisa de menina prodígio, mas não se pode dizer que fosse: eu era apenas uma criança apaixonada por uma história, uma canção, enfim.
Durante uma mudança de domicílio, na minha adolescência, procurei e cheguei a encontrar o velho exemplar d’ O Barquinho Amarelo perdido entre as confusões de caixas e pacotes. O livrinho, mais amarelado do que originalmente, já não contava com todas as páginas e, entre elas, a capa. Revê-lo foi um momento puro de saudosismo. Tempos após ele sumiria novamente. Depois desenvolvi uma mania, compulsiva até, de confeccionar barcos de papel. Amigos os ligavam a mim como uma marca registrada: se houvesse barquinhos no ambiente, Isolda havia passado por ali. Acabei alimentando essa relação inconsciente com a minha infância feliz.
Pode parecer exagero, mas tenho certeza que O Barquinho Amarelo foi condicionante para minha fascinação por ler e escrever – acima dele, somente a dedicação dos meus incansáveis pais. Acho uma pena quando vejo livros e brinquedos educativos fora da prioridade das relações entre pais e filhos hoje, porque esse comportamento tem formado leitores preguiçosos e escritores raros.
Os tempos são outros, é verdade, contra essa máxima nada posso. Antes de dormir os meninos querem meia-hora no videogame, as meninas preferem gastar os últimos créditos do celular com amiguinhas que verão na manhã seguinte na escola. Eu não desejo que meus filhos tenham uma infância retrógrada diante da contemporaneidade, mas nunca abrirei mão de lhes contar boas histórias infantis. Isso, certamente, irá ajudá-los a pensar e logo eles perceberão que o desenvolvimento de sua imaginação valeu mais do que a própria narrativa.
.: ISOLDA HERCULANO 15:19 .:
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